• Ananéia Machanoscki Bezer

Alto lá!

Atualizado: Set 11


Uma reflexão sobre a autoestima.

“O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer”
Arthur Schopenhauer

A motivação para escrever esse texto veio da lembrança das palavras de um professor da faculdade em meados de 1990 que dizia, “na história da sociedade, se começam a falar muito num assunto, é porque ele corre perigo de desaparecer”. Atualmente se fala muito em autoestima. Autoestima elevada. Baixa autoestima. Minha questão é: onde estará o eu quando dizem que “aquela pessoa não tem autoestima”?


A palavra autoestima surgiu a partir do grego autós, que quer dizer “a si mesmo”, acrescentada do termo latim aestimare, “valorizar, apreciar”. Mas como surge o “si mesmo” em nossa vida? E em que termos é possível valorizá-lo?

O se gostar, valorizar-se, tem relação com o quanto se constrói de expectativas sobre si mesmo.



O ser humano existe e existe além do seu pensar, uma vez que nele pulsa também o inconsciente. Refletir sobre o ser humano, sobre sua “natureza”, é saber que desde a Psicanálise, ela não tem nada de natural. Pois o ser humano deseja. Está sempre em busca de algo e insatisfeito. Isso o faz romper com a natureza. O desejo o liberta da necessidade, da determinação fisiológica. Ele não é regulado pela dimensão instintiva. No entanto, ele tem o predicativo de saber, de conhecer e de dominar. Muitas vezes quer dominar até a si mesmo e isso tudo gera conflito dele com ele mesmo e por vezes, com os outros.


Freud (1914) falou que uma unidade comparável ao eu não pode existir na pessoa desde o começo; o eu tem de ser desenvolvido. No entanto, desde o início, já existe busca pelo prazer, que independe de finalidade e de objeto externo. Basicamente se trata da tendência de preservação da vida de um organismo vivo. E esse organismo, aos poucos, vai construindo seu mundo, através de ligações, mecanismos que priorizem sua segurança. E ocorre a expansão do mundo de objetos de interesse.


Nessa época, a satisfação está ligada à absorção de alimento, o objeto está fora, na sucção do seio materno, por exemplo. Aos poucos a criança se torna capaz de ver em seu conjunto a pessoa a quem pertence o seio (o órgão que lhe proporciona satisfação) e surge aí o prazer consigo mesmo, num corpo, uma nova unidade que permite a criança a se contentar consigo mesma e encontrar satisfação no próprio corpo, mesmo que enxergue essas “partes” que o satisfazem como sendo de si (que na verdade, essas são de quem cuida). Ela sente desconforto, pensa no que lhe dá prazer, e o leite aparece. Quando a atividade do psiquismo pode ser compreendida como relação do eu com as fontes do prazer do objeto considerado como independente do eu, que a transformação atividade/passividade adquire a forma de amor que o eu pode dedicar a si mesmo.

Quem vive bem consigo mesmo, está sem briga com a própria imagem e não fica disputando por demandas de reconhecimento, está feliz.


Para Christian Dunker (2017) “sentimento de si é um critério muito sensível para detecção de sofrimento e para interpretação narrativa daquilo que está nos aflingindo”. E ele acrescenta “sofrimento não pode estar regulado pela autoestima”. Porque o sentimento de si tem duas funções que se relacionam, uma, com o tipo de ideal a que a gente se propõe e outra com o fato de sermos desejantes, e a gente sabe que se desejo algo é porque algo me falta.


Se o ideal é muito elevado, é possível que se ganhe em esforço quanto ao engajamento do sentimento de si com aquilo que espero/esperam de mim.


Se o ideal não é muito elevado, posso não investir tanto na realização dos meus projetos de vida, mas cada conquista pode ser mais bem apreciada.


Desejar algo que não se é ou não se tem, revela uma falta na pessoa, falta essa que a permite ir em direção a novas conquistas e a novos objetos psíquicos. Eu desejo e esse desejo me coloca em movimento, mas às vezes deixa o sentimento de si precarizado, insuficiente. Muitas vezes meu desejo faz com que outros “autos” surjam: o autojulgamento, a autopiedade ou autocondenação.


Uma cultura que exagera na função do sentimento de si vai colocar em segundo plano o risco que se quer tomar em nome de se levar adiante o desejo. Acaba recuando nos processos de apostas nos desejos do eu. Como se o medo de não ser correspondido pelo outro, pelas expectativas sociais ou do que quer que seja, fizesse a opção de se preservar ao invés de sair em busca do desejo.

O desenvolvimento do eu consiste num afastamento do eu onipotente, aquele que tudo pode e que tudo criou (que é a noção de mundo em esboço que um bebê pode ter) e engendra num rigoroso esforço para reconquistá-lo. Crescemos com um ideal de eu imposto pelo exterior, e a satisfação resulta da realização desse ideal. Rapapport (1992) falou que o eu implica o desconhecimento de uma alienação que o funda tornando-o alheio a si próprio. Ou seja, muitas vezes podemos ficar perturbados ou incomodados quando pensamos que nos conhecemos e ainda assim não nos reconhecemos numa certa experiência. Mas isso pode ser tema de uma próxima conversa.


Vou me preservar ou me arriscar? Ter medo de frustrações, de correr riscos e de sofrer, quem é que não tem?


“Vou me arriscar (a não ser correspondida, a dar com a cara na porta ao visitar/chamar/ ligar para alguém, a não corresponder ao que o mercado de trabalho/ meus amigos/ minha esposa/ meus pais querem etc) ou vou manter minha autoestima elevada”? O que vou aplicar em ações vai depender de um, digamos, equilíbrio das forças, ideias, sentimentos e conflitos que habitam em mim. O que eu mais quero, prevalece. Se o que mais quero faz parte de um desejo legítimo ou de um sintoma é o que responde parte (parte porque o eu é somente uma parte do si mesmo) da questão: onde estará o eu quando dizem que “aquela pessoa não tem autoestima”? O eu estará sofrendo ou no caminho trabalhoso em busca da felicidade onde cabe um gostar mais do que se é e do que se tem.


E para aqueles que observam o uso das palavras também, por que será que quase não se escuta mais a palavra ensimesmado?

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