• Ananéia Machanoscki Bezer

Aos nossos filhos

Atualizado: Ago 20

“Não é se entupindo de alimentos que se cresce, mas assimilando aquilo de que podemos nos apropriar”
Octave Mannoni

Gosto de pensar que investimos no amor ao criarmos uma família. Ser pai ou ser mãe, estar numa dessas funções, traz muita inquietação.


Estabelecer um laço que por si só já é forte e que traz à sua vida mais intensidade, estados de alegria e por que não dizer, até de fascinação, preocupação, e que começa tão assimétrico quanto ao poder de escolhas, autonomia, sendo que, se tudo der certo, caminha para uma relação de horizontalidade, amizade e intimidade, só poderia oferecer isso: inquietação. Isso sem levantar a possibilidade de, depois de muito tempo, essa relação poder de novo acabar em um desnível quanto ao poder de escolhas, só que o filho é quem vai poder cuidar das coisas nessa hora.


Que escolha é essa, de ter um filho? Podemos até escutar, “não escolhi, aconteceu”, mas também aconteceu de o pai ou a mãe que disse isso optar em seguir no cuidado e educação daquele que de alguma forma está e estará por um período, dependente de você. E isso inclui todos os tipos de criação paternal e maternal, de pais de primeira viagem, pais segunda ou terceira. Pais casados, solteiros, separados, de coração, em casal, trisal ou em projeto solo.


Falar da criança antes de ela estar em sua vida, organizar a casa, a vida, o tempo, o trabalho, a relação com as outras pessoas para alimentar, embalar, ensinar, aprender, apoiar e criar um filho, demonstra que a criança já ocupa um certo lugar antes mesmo de aparecer de fato. E quando ela chega, o planejado fica desconstruído e conhecemos um outro ser, único, com necessidades e desejos próprios, que nos expõe a aventuras diversas e que nos faz conversar muito com ele, com quem o está criando também, e com nossos pais...


As dúvidas nos perseguem aos montes. Desde “será que essa é a melhor luz para ele dormir?”, “deixo ela ficar no celular antes da lição?”, “essa amigdalite está persistente, opera?”, “falo de preservativo ou deixo para o pai?”, “como vamos falar da separação?”, “acho que ele não gostou da escola nova”, “como assim meu filho não pode fazer aula de balé?”, "ajudo ou não ajudo na lição?", “como vou auxiliar na escolha de uma carreira sem escolher junto?” entre outras. São temas pertinentes que se relacionam a família, gênero, saúde, educação, sexualidade, escolhas, limites, sentimentos, sofrimento. Mas uma dúvida é a campeã: “estou fazendo o certo?”. Na verdade, ela acompanha todas as outras. Precisamos de garantias! Mas não as temos. Isso pode nos fazer sentir como perdidos. Com anseio por respostas para sentirmos que não estamos errando. Mas será que o erro pode acontecer? Uma cobrança de não ter falhas é cruel e não auxilia nesse processo.


A história de nosso desejo de ser pai, mãe, possui um desenho particular, para cada filho, que faz trilhar caminhos que passam longe de uma tarefa pensada estrategicamente. De uma maneira geral, penso que tem mais afinidade com uma obra de arte. Estar na função de pai ou de mãe (sim é função, porque na vida desempenhamos outros tantos papéis), buscar construir um reduto de proteção e trazer segurança física, financeira e afetiva, para compor com o filho um ambiente favorável e estimulante, e cercá-lo de cuidados que suprirão demandas internas e singulares até que ele possa vir a cuidar de si, só vai ocorrer se não se privar o filho de suas próprias experiências e elaborações.


Além de tudo, educar é um processo contínuo e colaborativo. E nesse processo você poderá ter as respostas que procura. Observando com atenção o desenvolvimento do seu filho em cada área de sua vida. Para isso é preciso estar presente. De corpo e alma. Porque seu filho está presente. E traz consigo sua função. Naquilo que te traz de demanda, carência, queixa ou crítica está um pouco da história de suas escolhas na vida dele. Perguntar como está, mesmo que ele tenha 2 anos, e aguardar a resposta, pode levar um tempo, pode dar trabalho, mas somente isso leva os pais a compreenderem quem são seus filhos.


Atualmente várias mudanças ocorreram no tecido familiar e é possível se questionar sobre o papel de homem, de mulher e sobre a forma de ligação entre os casais e a formação das famílias. Não dá para negar que após os anos 50, houve uma invasão no nosso cotidiano de novas estruturas que vieram para ficar como tecnologia, ciência, capitalismo e globalização, que alteraram meios de produção, de consumo, e por que não dizer, que alteraram também as relações humanas. Ser informado pela mídia, que engloba muitos assuntos por minuto é muito bom, pode nos deixar cientes de muitas situações no mundo. Mas não pode me tirar do lugar de quem sabe escolher. Escolher o que quero para mim mesmo e para meu filho, enquanto ele cresce.


As inovações tecnológicas trazem informações de forma mais acelerada do que a capacidade do homem de utilizá-las e metabolizá-las. Dessa forma, se suas ideias passam a se confundir com as ideias veiculadas (fabricadas) pelos veículos de comunicação de massa, essa situação traz ao ser humano a perplexidade e paralisação, pois essas ideias não são sustentadas e não sustentam sua identidade. O que ocorre aí é a falha do sentido de interioridade e apropriação que é o que dá sentido à vida. É o que alimenta a experiência do dia-a-dia. O risco que se corre ao se consumir tanta informação é de fazer surgir um sentimento de impotência ou um personagem pleno de certezas, que procura excluir a impotência e sofrimento dos sentimentos humanos. Ou mesmo uma falta de ideais sociais que ao invés de promover o surgimento de projetos (o que você quer ser quando crescer, meu filho?), é facilmente substituído pelo o que é informado na mídia, que traz a melhor propaganda e convencimento do que é ideal para você e seu entorno. O risco disso tudo é o desenraizamento cultural.


E Freud trouxe para nós o importante papel da cultura. Resumidamente, a cultura tem por função a proteção da condição do desamparo humano ante a natureza e outros homens, além da organização das relações humanas e a divisão de bens. E a cultura atende às funções de proteger e organizar as relações humanas quando supre o sujeito de duas formas, pela convicção de ser único, especial e quando oferece a segurança de pertinência a um grupo desenvolvido por ideais comuns.


Uma pergunta que costumo fazer em grupos de orientação de pais é: e vocês, como foram criados?


A importância de se refletir, enquanto no papel de pai, mãe, ou aquele quem cria, sobre como foi criado, revela, de certa forma, em que posição você está em relação aos seus filhos. Geralmente, as escolhas que foram de nossos pais sobre o rumo de nossa educação e experiências, marcam-nos de modo a servir de guia, do que fazer e do que não fazer. E sei o quanto incomoda quando você se pega fazendo justamente aquilo que falou que nunca faria como seus pais. Mas não será essa a chave para você se autorizar quanto as escolhas mediante seus filhos?


E não se assuste quando isso acontece. A identificação com os nossos pais é um processo inconsciente, ou seja, nem eles nem a gente controla o que vai ser tomado deles para fazer parte de ti. A identificação é inconsciente, mas notar esse traço em você, já é um passo no processo de desidentificação, e então você poderá escolher se apropriar dele ou não.


A canção de Ivan Lins Aos nossos filhos, interpretada lindamente por Elis Regina, traz o verso:


“Quando brotarem as flores

Quando crescerem as matas

Quando colherem os frutos

Digam o gosto pra mim”


Para sabermos quem somos, de um modo geral, é preciso passar pelos outros. Na função de pai e mãe não é diferente. Eu sei quem sou como pai/mãe porque os outros sabem. Mas antes é preciso se autorizar a ter dúvidas, a escolher, acertar e errar. Tem sempre um por vir que faz parte desse laço forte, e que a meu ver, depende mais da glocalização do que da globalização.


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