• Ananéia Machanoscki Bezer

Olhos Diferentes

Atualizado: Mai 15

“O dedo aponta para a lua’: assim começa um ditado zen. Os olhos passam do dedo para a Lua – e eles vêem. Mas se os céus estão nublados, se não há lua alguma para ser vista, o dedo será inútil. Os olhos se voltarão para os céus sem ver coisa alguma.”
Rubem Alves

Confinamento. Filhos em casa. Maior convivência da família. Maior número de trocas. Bom momento para nos olharmos.

Uma pessoa ao se expressar desencadeia efeitos reacionais em outra pessoa. Todo mundo sabe que a reação de um “eu” a outro “eu” é fruto de particular ressonância e de um individual percurso que a ação (verbal ou não) interposta por um deles provoca no outro. Ressonância e percurso dependem de condições mentais, corporais, sociais, temporais.


Quando o comportamento do filho agrada, por exemplo, a gente sente satisfação e um pensamento surge: ‘eu fiz um bom trabalho’.

Escrevi ‘eu fiz’ para falarmos de sentimentos íntimos, voltados a pessoa, mesmo reconhecendo a complexa teia que compõe a educação e a construção de uma ação ou comportamento. Quando surge algo que desagrada, a gente sente e pensa que esse comportamento é somente do outro ou aprendido na interação com um terceiro que não é você. É como se você não houvesse influência sua nessa ação. “O talento educa-se na calma, o caráter, no tumulto da vida” (Johann Wolfgang von Goethe).

Conviver mais de perto com qualquer pessoa nos faz o convite de apreciá-la e observar que o que o outro tem eu também tenho. E vice-versa. Por isso, quando algo no ambiente está difícil de digerir ou mesmo de ter sentido para mim, como defesa posso tentar ignorá-lo, negá-lo ou suplantá-lo. Nossos olhos, como janela da alma, são treinados a investir naquilo que é conhecido de alguma forma.

Veio a minha memória a observação de um pai com seu filho pequeno na interação junto a um brinquedo de argolas em que o menino insistia em tentar passar a argola num movimento em que imitava o pai, mas o brinquedo já estava em outra posição e o menino não conseguia realizar seu objetivo. O pai, paciente, não fez o movimento por ele. Não pegou em sua mão. Incentivou-o com palavras “tem outro jeito”, “continue tentando”. Deu a ele a chance de pensar e flexibilizar o movimento que tinha acabado de aprender. Foi com o investimento de um olhar confiante na capacidade de criar do filho que o pai sustentou essa ação. E não é que a argola rendeu? Ocupou outros espaços também em outras brincadeiras.


Não há certezas na perspectiva a ser trilhada pela humanidade nesse novo rumo da história, mas há 20 anos atrás, Domenico de Masi escrevia “(...) o que deve ser ensinado aos jovens através de uma formação permanente, é como reprojetar continuamente a própria existência”.


Será possível oferecer olhos diferentes nesse confinamento para aqueles que vemos sempre? Olhos que encarem o outro como uma diferença desejável?




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