• Ananéia Machanoscki Bezer

Rumo à independência

Atualizado: Mai 21

“Um certo grau de oposição é importante para um homem. As pipas sobem contra e não com o vento”
John Neal

O ser humano nasce completamente dependente dos cuidados de um outro ser humano. Chamamos essa primeira fase de dependência absoluta. Conforme ele cresce, adquire a dependência relativa e cada vez mais obtém maior autonomia. Mas sua meta nunca será independência absoluta. O ser humano não é isolado. Ele se torna relacionado com o ambiente, de modo que se pode dizer que pessoa e ambiente são interdependentes.


Quero falar sobre o crescimento e a adolescência como um momento crucial no desenvolvimento de uma pessoa e que se apresenta como uma etapa decisiva de um processo de desprendimento que começou com o nascimento.


Há muitas mudanças nesse período que levam o adolescente a ter nova relação consigo, com seus pais e com o mundo. E isso só é possível quando se elabora lenta e dolorosamente o luto pelo corpo e identidade infantis e pela relação com os pais da infância.



Ocorrem mudanças corporais e psicológicas. O corpo se apresenta maduro (aparece a menstruação nas moças e o sêmen nos rapazes e ambos os sexos são capazes de procriar). A nova imagem que tem de seu corpo mudou também sua identidade. O adolescente precisa aceitar as mudanças de seu corpo e isso ocupa grande parte de sua energia. Causa flutuações de humor, de amor, de opinião, que faz com que o adolescente possa ser visto como vários personagens num mesmo dia. Surge uma combinação instável de vários corpos e identidades.


Não dá para ser criança num dia e acordar adulto no outro.


O adolescente precisa então adquirir uma ideologia que lhe permita sua adaptação ao mundo e/ou sua ação sobre ele para mudá-lo.


A busca de uma nova identidade faz com que o adolescente não queira ser como alguns adultos, mas em troca, escolhe outros como ideais. A entrada no mundo do adulto, tão desejada e temida, vem quando a maturidade biológica está acompanhada por uma maturidade afetiva e intelectual. Confronta suas teorias políticas e sociais e se posiciona, defendendo um ideal. Está munido de um sistema de valores que confronta com o de seu meio e onde o desprezo de determinadas situações significa crítica, construtiva ou não. Tem uma resposta às dificuldades e desordens da vida. Sua ideia de reforma do mundo se traduz em ação muitas vezes.


A dor que lhe causa abandonar o seu mundo e a consciência de que são incontroláveis as modificações que ainda vai experimentar dentro de si, levam o adolescente a realizar reformas exteriores que lhe garantam a satisfação de suas necessidades na nova situação em que se encontra, e que ao mesmo tempo lhe servem como defesa das mudanças internas e de seu corpo. Pinta o cabelo, muda os móveis de lugar, começa a trabalhar, vira vegano.

A inserção no mundo social do adulto com suas modificações internas e seu plano de reformas sobre amor, liberdade, sexualidade, paternidade, educação, filosofia e religião é o que vai definindo sua personalidade e sua ideologia. Contudo, a família, escola e amigos podem facilitar ou dificultar esse momento.


O adolescente procura e encontra satisfação nas conquistas. Uma nota de escola “suada”, terminar o livro de tema inusitado que achou que seria outra coisa, não bater a porta da geladeira pelo menos uma vez, comprar uma calça cara com o primeiro salário. Se os adultos do entorno (família, sociedade) não valorizam essas conquistas surge sofrimento e rejeição. São coisas importantes para ele.


Por isso o diálogo com o jovem não pode ter início nesse período. Ele tem que vir desde sempre, senão o adolescente não se aproxima do adulto. Um pré-adolescente de 10 anos, por exemplo, já anseia ser respeitado em sua busca de identidade, de ideologia, vocação e objetos de amor. Se o diálogo não se estabeleceu aí é difícil que haja maior compreensão na adolescência.


E se o adolescente age com violência, é porque está desesperado. E nesse momento decisivo os pais, desacostumados a terem que negociar podem incorrer a dois meios de coação: dinheiro e liberdade. Quando os pais respondem à demanda de liberdade restringindo as saídas ou cortando a mesada, utilizando a dependência econômica, significa que algo já não vinha bem na educação anterior e eles se declaram vencidos. Se lhe concedem excessiva liberdade, o adolescente vive como abandono, e que de fato o é.


Por que destacar apenas aspectos ingratos do crescimento, deixando de lado a felicidade e a criatividade que caracterizam a adolescência?


O adolescente é muito sério e informado e necessita de respeito sobre aquilo que valoriza. Sente que quando seus horários estão sendo controlados estão sendo controlados também seu mundo interno, seu crescimento e seu desprendimento. Ele reivindica algumas liberdades nesse processo, a liberdade nas saídas e horários; a liberdade de defender uma ideologia; e a liberdade de viver um amor e um trabalho. Estão indo rumo à independência, lembra?


Procura liberdade sexual também, mas como toda ação do adolescente, esta é atravessada por questionamentos que por um lado expressam a necessidade de se ter experiências que precisam viver, mas sempre procuram certa aprovação dos pais, para não sentirem culpa.


Mas conceder aprovação não quer dizer a cobrança de que informem sobre seus atos. Exigir informação pode não ajudar em nada assim como proibir. E é muito diferente de escutar.


Difícil? O adolescente toma a palavra, domina a situação? Quer contar suas ideias, suas conquistas, o que está acontecendo? Não quer críticas ou classificações de seus pais? Que importante ele ter você para quem falar. Nesse período a escuta e o diálogo ajudam ambos os lados.


Ainda é possível observar o adolescente passando por momentos de profunda dependência (onde precisam de atenção como uma criança pequena) e em seguida demonstram uma intensa necessidade de independência, e os pais podem ajudar sendo espectadores ativos e se baseando na necessidade do filho e não nos próprios estados de ânimos, para poder amparar a dependência ou a independência.


Não é somente o adolescente que padece nesse processo. Os pais agora são julgados por seus filhos.


A rebeldia e o enfrentamento são mais dolorosos se o adulto não tem conscientes os seus problemas frente o adolescente. Os pais precisam fazer o luto pelo corpo do filho pequeno, pela sua identidade de criança e pela sua relação de dependência infantil. Também os pais têm que se desprender do filho criança e evoluir para uma relação com o filho adulto. Deve abandonar a imagem idealizada de si mesmo que seu filho criou e na qual ele se acomodou. Já não pode funcionar como líder ou ídolo e deverá, em troca, aceitar uma relação cheia de ambivalências e críticas. Nesse ínterim, a capacidade e conquistas crescentes do filho obrigam-no a enfrentar-se com suas próprias capacidades e avaliar suas conquistas e seus fracassos. Assim, o filho adolescente se torna testemunha mais implacável do realizado e do frustrado. Só quando pode se identificar com a força criativa do filho poderá compreendê-lo e recuperar dentro de si sua própria adolescência. É nesse momento que o modo pelo qual se concede liberdade ao filho é definitivo para a conquista da independência.


Vou terminar com um trecho de uma fala de Pedro Bial num programa de entrevistas que me chamou bastante a atenção e que me fez pensar. Dizia mais ou menos assim, sobre a paternidade: na infância a gente é rei absoluto; na adolescência, um déspota esclarecido; na vida adulta, um governante deposto.


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