• Ananéia Machanoscki Bezer

Sobre a capacidade de estar só

Atualizado: Mai 15


“Há um certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer” Carlos Drummond de Andrade

Com o exercício do isolamento social pelo qual estamos passando nessa quarentena devido a pandemia do COVID-19, a maioria de nós parou de circular. É claro que temos meios de comunicação diversos, tecnologia e mídias para acessar o mundo e que já nos aproximava daqueles que não podíamos ver sempre, mas reduziu de forma significativa o aproximar concreto de presenças. E de presenças importantes.


Hoje não vou a nenhum lugar. Não esbarro em ninguém. Não experimento presenças diversas como as de colegas de trabalho, salas de aula, gente em filas, shows, cinema e lanchonetes. É claro, estamos atarefados organizando a casa com todos dentro, em home office ou procurando um novo emprego/renda, mas como não estamos de quarentena porque queremos, surgem sentimentos de raiva, desilusão, medo, pena e impotência. E sabemos, o sofrimento é vivido e sentido de forma singular.



Quando estudamos psicologia do desenvolvimento nos deparamos com diversas teorias que nos auxiliam a nos aproximar de ideias sobre do quê somos compostos.


Winnicott falou que a capacidade de ficar só é um dos sinais mais importantes do amadurecimento do desenvolvimento emocional observados já em bebês.


Para um ser humano que está em desenvolvimento, por mais paradoxo que isso possa parecer, essa capacidade surge através da experiência do bebê ou da criança pequena em ficar só, na presença da mãe, que está presente fisicamente ou representada por um berço, um carrinho de bebê ou uma atmosfera de ambiente próximo e aconchegante.


Winnicott apresentava a realidade pessoal psíquica como localizada no interior, e o que não fazia parte disso era o mundo externo e o crescimento toma forma de um intercâmbio contínuo entre realidade interna e externa.



E é na relação do sujeito com sua confiança advinda das primeiras relações e gratificações que surge a capacidade para viver de modo que possamos temporariamente sermos capazes de estar só, mesmo na ausência de pessoas ou estímulos externos importantes e que nos dê segurança.


Com o COVID-19, eis que surge um novo momento na minha rotina: tornar-me capaz de me defrontar com o que está presente dentro de mim e com o mundo e todas suas complexidades. E assim, sabendo que dou conta de estar só eu possa, discriminada, voltar-me para o outro e reaprender a fazer a teia da solidariedade.


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